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segunda-feira, 16 de março de 2009

Da Morte da Esperança



Eu nunca pensei em ser assassino e muito menos em matar alguém muito próximo, mas nunca se sabe o que pode acontecer neste mundo; eu sempre acreditei que fosse assim e agora tenho provas. Qualquer um de nós é capaz de praticar as maiores atrocidades, foi o que constatei; e o fiz da pior maneira possível.

Nasci um guri pobre, porém sonhador e muito esforçado. Dediquei-me aos estudos como pude. E ano após ano fui obtendo resultados satisfatórios, era o orgulho da família e um exemplo para muitos outros garotos. Nada denunciava que dentro de mim havia um assassino em potencial, pois até ali eu sempre agia cordialmente, dando valor à vida dos outros como dava à minha. Mas, ao que parece, tudo era um mero disfarce e, para minha triste surpresa, eu viria a me tornar o oposto de tudo o que havia sido até então.

Concluí o ensino médio (que era o "segundo grau" na época) e me preparava para prestar vestibular quando o primeiro sinal de minha mutação se manifestou: sentia medo de não alcançar meus objetivos, não conseguia confiar em mim, ou seja, me tornei um covarde e não há ato mais covarde do que tirar a vida de um indefeso, como eu chegaria a fazer mais tarde.

Mesmo não acreditando tanto em mim, fui ao local marcado e me submeti à prova para ingressar no ensino superior. Como eu havia imaginado, fui reprovado. E o pior é que depois desse fracasso toda a minha vida desandou, e fui indo de mau a pior. E a tragédia final, que me levou a cometer um ato insano, foi o rompimento com a minha primeira e única namorada; dali em diante me tornei esquivo em face às expressões de afeto, fossem de quem fossem, e me isolei dentro de mim mesmo, lamentando minhas misérias e adoecendo de uma amargura aguda.

O que passo a narrar agora é o desfecho final de minha história, bem como o ato que me privou da liberdade e tirou-me o resto de vida que eu ainda tinha...

Minha namorada, não suportando mais minhas atitudes absurdas (reclamações sem sentido, paranóias, complexo de inferioridade, ciúme excessivo) "deu-me baixa" do nosso compromisso e passou a me evitar de todas as maneiras possíveis. Ela era a última pessoa que ainda demonstrava acreditar em mim, pois eu mesmo parecia ter perdido a fé, ainda que eu não tivesse chegado ao fundo do poço. E aquilo foi a gota d'água, e como o resto da minha vida já estava descendo abismo abaixo, não temi (nem depois senti remorso, só um desengano) em acabar com quem sempre me fez olhar adiante e acreditar que eu era capaz.

Sem dar-lhe nenhuma chance de defesa, e aproveitando-me de sua fragilidade, dei-lhe um único golpe e levei-a à morte; desisti de mim, dei-me por vencido, vendi até a minha alma e acabei com todas as chances. Não havia ninguém mais próximo que ela, minha pobre esperança. Ela morreu por último, morreu pelas minhas próprias mãos, e agora eu vivo uma vida seca, sem sonhos nem planos ou uma fagulha de fé que seja. Não passo de um miserável, pois o que é um homem sem esperança?

terça-feira, 20 de maio de 2008

As aparências enganam



As mãos tremiam, frias e suadas. Era a sua primeira vez, a primeira vez que matava alguém. Aquele sentimento novo era um misto de liberdade e culpa, ela sentía-se diferente da menina meiga e paciente que sempre foi. Agora parecia mais forte. Será? Na verdade tinha uma aparência ameaçadora. Olhos esbugalhados (não acreditava no que havia feito), postura que lembrava um zumbi (o fato de ser esguia ajudava nesse sentido), cabelos engrenhados, andar trôpego. Não era uma heroína, era uma menina meiga e paciente que havia matado alguém e, estava tão assustada com isso que se transfigurara.
Quantas vezes havia passado por aquele caminho e quantas vezes havia cruzado com aquele homem? Ele sempre a elogiava e, apesar de ele ser um homem e ela uma bela jovem, nunca havia se insinuado para ela. A respeitava como a uma filha. Ela por sua vez o admirava muito, o via como um grande homem, um herói. Ela o amava secretamente, sentía-se presa àquele sentimento e temia que fosse a público. Não queria que ele soubesse, pois ele era mais velho que ela e não faria caso dos seus sentimentos, assim ela pensava. E quanto mais o tempo passava, mais aumentava a força daquele sentimento, agora havia ciúme, a paixão tomara conta dela. Sabe-se que certos sentimentos quando não expressados tornam-se mais fortes, crescem desordenadamente como células cancerígenas. As conseqüências daquele turbilhão de sentimentos eram imprevisíveis, mas aparentemente ela se continha.
Naquele fatídico dia, ela estava passando pelo caminho de sempre quando o viu de mãos dadas com outra moça que aparentava ter a sua idade. Ele a tratava carinhosamente, fazía-lhe cafunés, ambos riam muito, pareciam mais um "casal satisfeito". Ela não suportou ver aquela cena. Sempre se esquivara de declarar o que sentia, achava que não seria levada a sério, mas agora havia visto uma moça como ela sendo tratada carinhosamente pelo homem ao qual amava.
"Se não pode ser meu, não será de ninguém!". Com essa frase ela retornou a sua casa, tomou a arma de seu pai, voltou ao local onde a cena ainda se desdobrava e, quando os dois se despediram, esperou que a moça tomasse um ônibus e aproximando-se do amor da sua vida, matou-o friamente. Atingiu-o a queima-roupa no peito. E agora estava lá, parada junto ao corpo, sentido-se livre da prisão dos sentimentos. Mas algo lhe fazia sentir culpa. O coração nem sempre se engana...
A polícia chegou ao local, interrogou-a. Ela nada respondeu, mas não precisava de confissão para ser detida, foi pega em flagrante. Minutos depois da chegada da polícia, a moça de antes aparece aos prantos e grita, desesperada, chamando por seu tio. Era uma sobrinha que a pouco veio visitar o tio carinhoso e brincalhão e agora o via estendido no chão. E a culpa da meiga e paciente assassina tinha um motivo.
De fato as aparências enganam.

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