segunda-feira, 15 de março de 2021
Colapsando
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sexta-feira, 27 de outubro de 2017
Envelhecendo
Não sei de que são feitos
Os sonhos que sequer sonhei
Só sei dos meus anseios
E anseio por saber por que
A vida é tão pesada
E dura e tantas coisas mais
É uma canção frustrada
Na boca de um bom rapaz
É um lenço na cabeça
Seja por bem seja por mal
É um baile ensaiado
De máscaras de carnaval
É um terço na mão boba
Expressa fé, mas fé em quê?
É qual notícia boa
Que nunca não passa na tevê
É trave, é prego, é lança
Suor e sangue, pranto e morte
A vida é uma criança
Que sonha ser alguém mais forte
Um dia acordei velho
Pensei que era pesadelo
E a vida disse aos berros
Que eu dormi do fim pro meio
Que andei de trás pra frente
Que fiz papel de passar mal
Que vivi crendo e crente
Apostatei já no final
Vendi a esperança
Em troca de algum prazer
Matei minha criança
E fiz um velho eu nascer.
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Isaac Marinho
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terça-feira, 17 de outubro de 2017
Psicose
Os loucos só sonham com a vida normal
Com o mundo real, tudo normalizado
Sonham homens, mulheres da vida real
Sonhos todos reais, tudo realizado
Sonham casas, famílias e empregos normais
Sonham o ideal, tudo idealizado
Sonham tudo o que existe de bem e de mal
Sonham com todo caos desse mundo ordenado
Sonham tanto que acordam sem ar e sem paz
Sonham serem normais e acordam surtados.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Jumento Brasilino
O jumento Brasilino,
Brasileiro que só ele,
Pensou-se sabido e forte;
Quis o dono que escolhesse.
Mas o azar lhe foi destino
E só más escolhas teve.
De primeira foi dum velho,
Luiz do Bucho Furado;
Falastrão, mas cabra esperto
Fez-lhe logo de empregado.
Brasilino, sem descanso,
Tornou rico o iletrado.
De Luiz passou-se a Vana,
Mulher ruim, dura na queda.
Mas já veio meio frouxo
E o serviço não deu trégua.
Brasilino, haja a sofrer
Quase morre o fi duma égua.
E se diz em Trapiá
Que já busca outro dono.
Quer de Vana escapar,
Só não sabe quando e como.
Se alguém aqui quiser,
Seja do jumento o dono.
(Mestre Kinho Fidabrão)
Publiquei este aqui.
O pseudônimo "Mestre Kinho Fidabrão" tem uma explicação: o título "Mestre" é algo que costumo usar, especialmente ao tratar com pessoas do meu convívio "trabalhístico" (e é algo que pego emprestado da fala do matuto). Kinho, além de ser o apelido (quase nome) de um colega de trabalho, é como soa o final do diminutivo de meu próprio nome. E, por fim, Fidabrão — Fi[lho] de Abrão/Abraão — é outra pista do meu nome.
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terça-feira, 2 de julho de 2013
Comercial
Banhe-se
Vista-se
Perfume-se
Aventure-se
Dispa-se
Venda-se
Anuncie aqui.
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sábado, 18 de maio de 2013
Selé
Ela falou: quero pintar o cabelo.
Disse: eu quero vermelho
E vai ter que ser assim.
Ela insiste em brigar com o espelho
E, se eu fico no meio,
A coisa sobra pra mim.
Eu não entendo essa mania, essa manha,
Mas se eu falar, ela estranha,
Então é melhor calar.
E quando calo ela puxa conversa.
Quero ficar fora dessa
E ela quer conversar.
Fala do peso, duma unha quebrada.
Eu não entendo mais nada,
Ela parece tão bem.
Ela reclama que está feia e está gorda.
Acho que está mais pra doida,
Mas é melhor dizer nem.
Ela é tão linda que me deixa abobado
E, se estou ao seu lado,
Eu mal consigo pensar.
Se digo a ela tudo isso que sinto,
Ela acha tudo tão lindo,
Mas logo deixa pra lá.
Volta a falar que está cansada de tudo,
Que desabou o seu mundo,
Pois sua bolsa estragou.
Chora o sapato que morreu anteontem,
Lamenta a falta de fome
E grita que engordou.
Fico perdido nessa conversa dela,
Mas gosto de estar com ela.
Até aqui, tudo bem.
Mas se um dia ela ficar maluca,
Com tanta coisa na cuca,
Eu fico doido também.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Atriz
Nada diz do que sente de fato.
Ameaça morrer em meus braços,
Mas desvia o olhar do meu rosto
E se afasta de mim pouco a pouco.
Dá-se a me entreter com suas manhas.
Faz-me mosca em teia de aranha
E me arranha o peito e o juízo,
Mesmo a alma se achar preciso.
Faz de mim um brinquedo em seu jogo
E me deixa posando de bobo.
Mas se lhe dou afeto, se afasta,
Me abandona qual roupa já gasta.
Dispensado do seu figurino,
Sinto ser nada mais que um menino.
Quando ela voltar a ter fome,
O menino será o seu homem.
sexta-feira, 29 de março de 2013
Incendiário
Olhos de fogo
Fitam a fonte
Do amor que arde,
Do ardor que invade
E incendeia
E incinera
O peito,
A vida
E tudo mais.
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sexta-feira, 8 de março de 2013
Parola
As aves cantam,
Voam, dançam,
Brincam lá fora
Da gaiola.
Parola!
Até lá fora,
Pousam, andam,
As aves cansam.
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sábado, 2 de março de 2013
Verbocídio
Palavra não dita, pensada
Ajuizada em secreto
Julgada e então condenada
Lançada em local abjeto
Palavra perdida na fala
Contida num frágil suspiro
Detida na língua ingrata
Aprisionada num grito
Palavra em silêncio enforcada
Sujeita a ser esquecida
Deitada à bacia das almas
Palavra sem ser proferida.
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Isaac Marinho
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sábado, 23 de fevereiro de 2013
Resoluto
Às vezes penso que morrer seria libertador. Mas que liberdade há em ser posto em um caixão, baixado em uma cova e enterrado? Viver é difícil, mas a gente, pelo menos, escolhe algumas coisas, tipo, coisas... né?
Enfim, eu gostaria muito de me dar por satisfeito com minha atuação neste mundo, mas me sinto preso e limitado a certas coisas como protocolos, classe social, meio de transporte e saldo de conta bancária (ou a insuficiência dele). Há quem não sinta o peso desses grilhões, mas eu sinto e até mesmo poderia citar um milhão (talvez mais, talvez menos) de elos dessa corrente que me aprisiona.
Decepções, falta de tempo (ou falta de noção do dele), desânimo, dentes tortos, calvície, a notável saliência abdominal, o sentimento de não ser bom o suficiente, a sensação de não ser bem recompensado quando sou bom em algo, a agonia da espera pelos outros, o desespero quando os outros esperam por mim, os constantes atrasos do 5204, o café que salta da caneca quando procuro me acomodar para consumi-lo, todas essas coisas e talvez mais outras (nem tudo se resume ao que pode ser dito) me prendem dia após dia, mas eu ainda tenho escolhas.
Escolho se vou lamentar ou agir, inclusive escolho a hora de agir ou lamentar. Escolho muitas outras coisas como enfrentar as situações, mesmo que as frustrações estejam a me lamber os calcanhares; escolho não contar o tempo (quando parece faltar) ou contá-lo (quando perco a noção dele). Escolho ceder à animação contagiante das pessoas próximas, sorrir, raspar o cabelo, praticar Hung Gar (se bem que ando ausente ultimamente...), ser bom em algo (independente da recompensa), correr feito um louco (e depois fingir que nem estava preocupado), pegar o 204 e saltar na Integração, limpar o café do chão.
Escolho ficar calado e ouvir; escolho as piadas inconvenientes e sem graça que conto (e as pessoas a quem devo contá-las). Escolho suco em vez de refrigerante, escolho música, poesia, livros etc.
Escolho viver.
sábado, 2 de fevereiro de 2013
À brinca
Mande prender
O cabelo da menina,
Nossa roupa no varal
E o cachorro da vizinha,
Que bagunça o meu quintal.
Que se faça a justiça,
Inda que de brincadeira.
Que se siga a regra à risca
Ou que, de qualquer maneira,
Se insista em segui-la.
Mande soltar
Papagaio, arraia, pipa;
Que brinquedo não faz mal.
Se fizer, chame a polícia,
Mande cartas pro jornal.
Que esse mal vire notícia,
Pra ver se o bem se ajeita
E acaba essa injustiça.
Mesmo que de brincadeira,
Quero a vida bem tranquila.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Introspecto
Chegada a hora,
A hora precisa ir embora
No exato momento em que chega
E nem faz menção de voltar.
Envolto em planos,
Em segundo plano deixado,
Espero o próximo ato,
Que a espera me ensina a esperar.
Ando parado,
Andejo em meus pensamentos,
Mas estagnado dos feitos.
Nem sei se viver eu sei mais.
Fico sozinho
No escuro do quarto que habito.
Em silêncio alço meu grito
De quem luta em busca de paz.
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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Retrospecto
O amor chegou ontem
E consigo alguma alegria.
Se não toda, quase muita;
Que a melancolia aguda
É difícil de ser suplantada.
Mas por pouco, quase nada,
Inda reside em mim a tristeza,
De incertezas adornada;
A contê-la, só o amor ajuda.
Se a vida É de todo gratuita,
Lucro mesmo na pouca alegria,
Que o amor chegou ontem.
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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
unvermeidlich
Do amanhã, o que sei
É que não será mais amanhã
Ao chegar, sim,
Pois se tornará em hoje.
E do hoje, o que penso
É que depressa se vai
E, ao chegar o amanhã
E o nome lhe tomar,
Este hoje será ontem
Sem que eu possa lamentar.
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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Coisificado
Só lanço olhares às coisas,
Que elas de pronto não olham de volta.
E, se olham, fitam cegas,
Namorando a alma piegas
Que inda nega ser coisa também,
Mas que é crente de haver nada além
Dessa vida que a si mesma encerra.
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terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Iscmohveda
Mestre e discípulo despediam-se:
— Por onde quer que fores, a teus amigos respeita. Lembra-te que a alegre Bu dista jornada de um dia daqui…
— E em que direção fica Mu?
Outro discípulo intervém:
— O pacífico país de Mu? Sul, mano. Mas ainda não é para lá que vais.
O mestre continua:
— Não te esqueças de Khris, tão frágil alma, teu irmão. Socorre-o em seus conflitos.
O discípulo então pergunta:
— A quem devo rogar que faça auspiciosa essa minha viagem?
O mestre responde:
— Àquele, a quem uns negam e de quem muitos esquecem, o qual alguns chamam acaso, outros, destino, e outros ainda, pai.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Penalizado
Que pena que não sei
Da pena me manter.
Escrevo por querer
Fingir que posso mais,
Que a vida é doce e bela,
Que a cela é bem maior,
Que o fel tornou-se vinho,
Que a estopa fez-se linho,
Que o espinho é menor,
Que a paz venceu a guerra.
Que posso querer mais?
Querer, por escrever,
Da pena me manter.
Que pena que não sei.
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Isaac Marinho
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quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Samsara
Tantas vidas dentro da cabeça
Que mal vivo a minha de verdade.
Tanto esforço pra que eu esqueça
Dessas vidas e de seus detalhes,
Dos entalhes da moldura delas,
Das vielas de seus mil lugares,
De suas praças repletas de gente,
Dos amigos bebendo nos bares,
Dos amores vividos e extintos,
Dos instintos de sei lá o quê.
Dessas vidas todas o que sinto
É o desejo de não mais viver.
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terça-feira, 20 de novembro de 2012
Até logo
Triste é ter o amor distante,
Inda que por pouco tempo.
Dói querer e a cada instante
Não ter um abraço ou beijo.
Dói no peito, dói demais.
Nem na morte haverá paz,
Que ela é separação.
E essa dor, só a união
Com o nosso amor desfaz.
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Isaac Marinho
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