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quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Moribundo



Eu tenho um sonho suspeito
De nunca se realizar
Eu tenho, por Deus, o direito
De muito querer acordar

Eu tenho passado e presente
Vontade de me enxergar
Não tenho futuro à frente
Nem crença em que me apegar

Vou solto no vento da vida
Nem sei onde um dia vai dar
Mas peço em prece esquecida
Que Deus não me deixe falhar

Sou estrela quase apagada
Sou vela a se apagar
Sou sol a se por pela estrada
Que ao fim vai me ver descansar


Escrevi esses versos anteontem, tomado de ansiedade. Eles refletem como me sinto nessa luta que travo comigo quase todos os dias, com mais ou menos intensidade, desde que me entendo por gente.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Desligando-se



Aperta o pitoco da vida, que o som do choro vai baixando até o silêncio.
Deixa estar assim.
Deixa o hoje por hoje. Vai fazer teu amanhã em sonho.
Dorme com os anjos. Dorme sem fome nem frio.
Dorme tranquilo. Dorme o derradeiro sono.
Que o raiar do sol sem fim te acorde no além.

Perdido originalmente em 18/10/2021, no Twitter.

sábado, 10 de abril de 2021

mysterium vitae



O mistério da vida está posto diante de nós 
E o ignoramos, deixando de ouvir sua voz 
E fingimos não vê-lo, que assim não nos pesa a culpa 
E queremos detê-lo a cada mentira e desculpa 
Se nos falta a fé de aceitar que a vida é preciosa 
Nos sobeja orgulho em torná-la tão vil e odiosa 
Que prazer temos eu e você em fingir que sabemos 
Que o mistério da vida é algo que sempre soubemos 
Se é mistério, de nada sabemos senão isto mesmo 
Que pensando poder compreender andaremos a esmo 
Procurando em vales a abismos o mistério da vida 
Sem lembrar que viver pode ser sua epifania 

segunda-feira, 15 de março de 2021

Colapsando



Tive um ataque
Nada demais
Caí, chorei, me debati
Coisa de quem sofre
Coisa de quem vive
Mas não somente para si.

A vida é um baque
Às vezes mais
Se ri, se canta, se é feliz
Noutras só se sofre
E em todas se vive
Que viver é um cair em si.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Psicose



Os loucos só sonham com a vida normal 
Com o mundo real, tudo normalizado 
Sonham homens, mulheres da vida real 
Sonhos todos reais, tudo realizado 
Sonham casas, famílias e empregos normais 
Sonham o ideal, tudo idealizado 
Sonham tudo o que existe de bem e de mal 
Sonham com todo caos desse mundo ordenado 
Sonham tanto que acordam sem ar e sem paz 
Sonham serem normais e acordam surtados.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Dia desses



Atílio, Nestor e José conversando sobre a dura vida do brasileiro.

Atílio, revoltado, resmungou: 
— E o preço da gasolina, hein, Nestor?!

Nestor, indiferente diz: 
— Sei lá, Atílio. Ando de bicicleta ou a pé. Não vejo diferença. 
Agora, me diz uma coisa, José. E essa cesta básica, hein? Tá quase virando punhado básico…

José interrompe: 
— Não me faz falta, Nestor. Passo fome desde a inauguração de Brasília. E se eu tivesse dinheiro pra um litro de gasolina que fosse, ensoparia meus trapos e tacaria fogo em meus restos viventes…

Atílio e Nestor exclamam a uma: 
— Com que isqueiro?! 
— Com que fósforos?!

José responde com um sorriso maroto: 
— O que não faltam são bitucas, caros amigos.

Todos suspiram aliviados. E cada um vai para sua mansão, casa e praça, respectivamente.


Obs.: O aniversário de José e de Brasília é coincidente, nada mais que isso. Vai dizer que nenhum brasileiro sofredor nasceu naquele 21 de abril de 1960? 
O triste é que o José vem sofrendo desde o berço (se é que ele teve um).


terça-feira, 17 de março de 2015

Pela glória



Que ideias que nada! 
É o discurso inflamado que nos move, 
Inda que mostre-se vazio de sentido. 
Que ideais coisa nenhuma! 
É pelas cores das bandeiras que lutamos, 
Mesmo que estejam encardidas de desvios. 
Que vida que vivemos! 
Que morte morreremos! 
Que herança que deixamos? 
Que história escreveremos? 
Que lástima!


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Jumento Brasilino



O jumento Brasilino, 
Brasileiro que só ele, 
Pensou-se sabido e forte; 
Quis o dono que escolhesse. 
Mas o azar lhe foi destino 
E só más escolhas teve.

De primeira foi dum velho, 
Luiz do Bucho Furado; 
Falastrão, mas cabra esperto 
Fez-lhe logo de empregado. 
Brasilino, sem descanso, 
Tornou rico o iletrado.

De Luiz passou-se a Vana, 
Mulher ruim, dura na queda. 
Mas já veio meio frouxo 
E o serviço não deu trégua. 
Brasilino, haja a sofrer 
Quase morre o fi duma égua.

E se diz em Trapiá 
Que já busca outro dono. 
Quer de Vana escapar, 
Só não sabe quando e como. 
Se alguém aqui quiser, 
Seja do jumento o dono. 


(Mestre Kinho Fidabrão)

Publiquei este aqui.

O pseudônimo "Mestre Kinho Fidabrão" tem uma explicação: o título "Mestre" é algo que costumo usar, especialmente ao tratar com pessoas do meu convívio "trabalhístico" (e é algo que pego emprestado da fala do matuto). Kinho, além de ser o apelido (quase nome) de um colega de trabalho, é como soa o final do diminutivo de meu próprio nome. E, por fim, Fidabrão — Fi[lho] de Abrão/Abraão — é outra pista do meu nome.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Acalanto



Dorme, criança 
Nos braços da mãe faminta 
Agarrada a um peito seco.

Sonha, criança 
Que há leite e inda há vida 
Que é teu quarto esse beco.

Dorme, pequena 
Tua mãe cessou os rogos 
Entregou-se e foi-se em paz.

Dorme, serena 
Nunca mais abras teus olhos 
Deixa o mundo triste e vai.



quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Dia a dois



Dia mais quente, 
Cheiro da gente, 
Gosto de amor, 
Beijo de tchau 
E um olhar de até mais.

Meio do dia, 
Na correria, 
Almoço e afago, 
Doce e amargo, 
Da cama ao banho e o que mais.

No fim de tarde, 
Sem mais alarde, 
Conversa e tal, 
Olhar de amor, 
Do banho à cama e tudo mais.

Noite em mormaço, 
No pouco espaço, 
Beijos e abraços, 
Risos e estalos 
E um olhar de algo mais.


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Esquindô



Não sei se o dia vai morrer de dor. 
Será que o céu vai devolver a cor 
Que o fim da tarde sempre esconde 
E faz sumir no horizonte? 
E o som do bonde 
Ao seu adeus responde. 
E ao meu olá, talvez.

Será que a noite vai querer dormir? 
Não sei se a lua vai querer sair, 
Que a noite é uma criança grande 
E quer brincar de pique-esconde. 
E não sei onde 
O seu adeus ecoa. 
E o meu olá, de boa.


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Afundando



Na solidão do meu quarto 
No parto de ideias tristes 
Lamento meu despreparo 
Face a tudo que existe 
E perco o precioso tempo 
Envolto em mil suicídios 
E acordo do pesadelo 
Com corda, cacos de vidro 
E viro pro outro lado 
Secando o suor de sangue 
E durmo mal embalado 
Afogado em meio ao mangue.

 

sábado, 16 de agosto de 2014

Branco



Suzana tinha um cavalo amarelo. Seu nome era Branco.

Não era um animal de passeio nem de exibição. Era um animal trabalhador. Motor e ferramenta. Transporte de carga e de gente.

Anos passados de uma vida sofrida, Branco faleceu. Fizeram-lhe todas as homenagens possíveis. Trataram de encomendar uma estátua para ser posta na praça da cidade. Deram-lhe todas as honras, apreço e carinho (simbólico, é claro) que lhe negaram durante toda a vida.

Assim todos ficaram satisfeitos, de consciência leve, livres da culpa e cheios de medalhas de caridade no peito. E o cavalo, morto.

Suzana suicidou-se.


quinta-feira, 24 de abril de 2014

Ashita made



Acordar da vida, 
Despertar dos dias sem sentido. 
Ver que além da linha 
Do horizonte, logo ali, há um dia lindo. 
Indo e vindo os dias passam; 
Praça, porta a dentro, 
Venta, chove e faz sol. Talvez 
O adormecer da vida 
Não seja partida, seja até mais ver.

Acordado ainda, 
Desperto dos dias mal sentidos. 
Vejo que inda há vida; 
Além do horizonte há um dia vindo. 
Idos os dias passados, 
Porta a fora, a praça 
Pede festa até o sol nascer. 
Ao adormecer da vida 
Sinto que a partida é esperar rever.


domingo, 23 de março de 2014

Vincent



A turbidez da imagem sonhada 
Impressa a óleo sobre a tela 
Trazia à realidade clara 
A dor da alma por trás dela. 
Tão bela obra elaborada 
Por mente assaz perturbada 
Só poderia ser chamada 
De sonho em óleo sobre tela.

 

sábado, 15 de março de 2014

Quedê?



Onde estará o meu maço de ideias? 
Onde andará meu buquê de esperanças? 
Onde deixei minha caixa de sonhos? 
Onde é que está meu amor de infância?

 

sexta-feira, 14 de março de 2014

Palavras vadias



As palavras metidas 
Na métrica fria de versos, 
Vazias de vida e sentido, 
De amor desprovidas, 
Apenas se deixam usar... 
Palavras não sabem o que dizem.

 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Misteriosa vida



O que quer que seja a vida, 
Não é fácil de viver. 
A chegada e a partida 
Pouco podem nos dizer 
Dos caminhos percorridos, 
Do aquém e além daqui, 
Seja o que for a vida, 
Não é fácil definir. 
Ah, indecifrável vida, 
Dá-me um pouco descobrir.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Redivivos



Às vezes o passado é tão presente e o distante está tão perto. É o que sentimos no almoço na casa da avó, no pão doce com cajuína (ou tubaína ou simba, alguns dirão “pastel com dindim” – eu mesmo poderia dizer), no abraço dos amigos, nas crianças jogando bolinha de gude ou “futebol de travinha”, ou rodando pião (sim, isso ainda existe aqui e ali). Estamos todo o tempo e o tempo inteiro perto de quem fomos e do que tivemos. Não só isso. 
Às vezes, mas só às vezes mesmo, somos capazes de nos ver nos outros, de sentir que no sorriso do flanelinha mirim há um pedaço da infância da gente, de constatar que na cantoria do menino do pandeiro no ônibus há um “eu cantando no chuveiro”. Bobagem? 
Se não fosse só “às vezes”, veríamos que, de fato, somos o passado, o presente e o futuro uns dos outros.


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Saudoso



Amor, deixe essa porta aberta 
Deixe-me ver tua sombra 
Curar essa solidão 
Amor, cante ao tomar seu banho 
Deixe seu canto mavioso 
Lavar o meu coração 
Amor, deixe seu cheiro no quarto 
Quando calçar seus sapatos 
E finalmente partir 
Amor, só não me deixe esperando 
Tão logo termine o dia 
Volte depressa pra mim.


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