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quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Desligando-se



Aperta o pitoco da vida, que o som do choro vai baixando até o silêncio.
Deixa estar assim.
Deixa o hoje por hoje. Vai fazer teu amanhã em sonho.
Dorme com os anjos. Dorme sem fome nem frio.
Dorme tranquilo. Dorme o derradeiro sono.
Que o raiar do sol sem fim te acorde no além.

Perdido originalmente em 18/10/2021, no Twitter.

segunda-feira, 15 de março de 2021

Colapsando



Tive um ataque
Nada demais
Caí, chorei, me debati
Coisa de quem sofre
Coisa de quem vive
Mas não somente para si.

A vida é um baque
Às vezes mais
Se ri, se canta, se é feliz
Noutras só se sofre
E em todas se vive
Que viver é um cair em si.

sábado, 9 de maio de 2020

Querido diário



Dia após dia, levo o cachorro para passear (o que é um eufemismo para "aliviar suas necessidades fisiológicas", que continua sendo um eufemismo, mas tendo a evitar o tema diretamente) e, vez por outra, levo minha filha nesses passeios. 

Andamos na calçada em frente ao condomínio, nunca para muito longe. O parque está fechado. Seria nosso destino se não estivesse. Mas nos viramos com o que podemos. 

Ela é apenas uma criança de três anos, quase quatro. Passeio curto com o cachorro é uma viagem, é diversão. Ela observa a rua sem movimento, as plantas, as árvores. Colhemos flores para "a mamãe", que ela faz questão de entregar. 

Apostamos corrida no estacionamento. Ela sempre que ganhar. Chora quando perde, mesmo que eu diga que perder faz parte. Mas ela vai aprender, de uma forma ou de outra. 

A vida nos ensina hoje a aproveitar as pequenas coisas. Só temos hoje para viver. Aproveite o presente.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Psicose



Os loucos só sonham com a vida normal 
Com o mundo real, tudo normalizado 
Sonham homens, mulheres da vida real 
Sonhos todos reais, tudo realizado 
Sonham casas, famílias e empregos normais 
Sonham o ideal, tudo idealizado 
Sonham tudo o que existe de bem e de mal 
Sonham com todo caos desse mundo ordenado 
Sonham tanto que acordam sem ar e sem paz 
Sonham serem normais e acordam surtados.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Dia desses



Atílio, Nestor e José conversando sobre a dura vida do brasileiro.

Atílio, revoltado, resmungou: 
— E o preço da gasolina, hein, Nestor?!

Nestor, indiferente diz: 
— Sei lá, Atílio. Ando de bicicleta ou a pé. Não vejo diferença. 
Agora, me diz uma coisa, José. E essa cesta básica, hein? Tá quase virando punhado básico…

José interrompe: 
— Não me faz falta, Nestor. Passo fome desde a inauguração de Brasília. E se eu tivesse dinheiro pra um litro de gasolina que fosse, ensoparia meus trapos e tacaria fogo em meus restos viventes…

Atílio e Nestor exclamam a uma: 
— Com que isqueiro?! 
— Com que fósforos?!

José responde com um sorriso maroto: 
— O que não faltam são bitucas, caros amigos.

Todos suspiram aliviados. E cada um vai para sua mansão, casa e praça, respectivamente.


Obs.: O aniversário de José e de Brasília é coincidente, nada mais que isso. Vai dizer que nenhum brasileiro sofredor nasceu naquele 21 de abril de 1960? 
O triste é que o José vem sofrendo desde o berço (se é que ele teve um).


terça-feira, 17 de março de 2015

Pela glória



Que ideias que nada! 
É o discurso inflamado que nos move, 
Inda que mostre-se vazio de sentido. 
Que ideais coisa nenhuma! 
É pelas cores das bandeiras que lutamos, 
Mesmo que estejam encardidas de desvios. 
Que vida que vivemos! 
Que morte morreremos! 
Que herança que deixamos? 
Que história escreveremos? 
Que lástima!


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Acalanto



Dorme, criança 
Nos braços da mãe faminta 
Agarrada a um peito seco.

Sonha, criança 
Que há leite e inda há vida 
Que é teu quarto esse beco.

Dorme, pequena 
Tua mãe cessou os rogos 
Entregou-se e foi-se em paz.

Dorme, serena 
Nunca mais abras teus olhos 
Deixa o mundo triste e vai.



quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Esquindô



Não sei se o dia vai morrer de dor. 
Será que o céu vai devolver a cor 
Que o fim da tarde sempre esconde 
E faz sumir no horizonte? 
E o som do bonde 
Ao seu adeus responde. 
E ao meu olá, talvez.

Será que a noite vai querer dormir? 
Não sei se a lua vai querer sair, 
Que a noite é uma criança grande 
E quer brincar de pique-esconde. 
E não sei onde 
O seu adeus ecoa. 
E o meu olá, de boa.


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Afundando



Na solidão do meu quarto 
No parto de ideias tristes 
Lamento meu despreparo 
Face a tudo que existe 
E perco o precioso tempo 
Envolto em mil suicídios 
E acordo do pesadelo 
Com corda, cacos de vidro 
E viro pro outro lado 
Secando o suor de sangue 
E durmo mal embalado 
Afogado em meio ao mangue.

 

sábado, 27 de setembro de 2014

Me aguente



Copiar o amor dos poemas dos outros;
Seria tão pouco, pra não dizer nada.
Imitar cada gesto duma cena de amor;
Eu não sou bom ator, imagine a piada.

Me fazer Pierrot, de você, Colombina;
Carnaval não me anima, você deve saber.
Nem em cavalo branco chegarei montado;
Mas não chego atrasado, você sabe o porquê.

Tenho minhas manias e tiques e taques;
Talvez eu tenha TOC, mas que mal isso tem.
Se amar é o que vale, isso pode ser feito;
Só que tenho meu jeito, não imito ninguém.

Sei que estou te amando, é verdade, não minto;
Eu sei bem o que sinto, mas te custa entender
Que com tudo o que tenho em meu juízo pouco,
Meu amor é tão louco quanto eu posso ser.

Acredite ou não, esse amor é sincero;
Nada em troca eu espero, tudo bem se der ruim.
Mas se todo esse amor não é suficiente,
Meu amor, me aguente, não desista de mim.


sábado, 16 de agosto de 2014

Branco



Suzana tinha um cavalo amarelo. Seu nome era Branco.

Não era um animal de passeio nem de exibição. Era um animal trabalhador. Motor e ferramenta. Transporte de carga e de gente.

Anos passados de uma vida sofrida, Branco faleceu. Fizeram-lhe todas as homenagens possíveis. Trataram de encomendar uma estátua para ser posta na praça da cidade. Deram-lhe todas as honras, apreço e carinho (simbólico, é claro) que lhe negaram durante toda a vida.

Assim todos ficaram satisfeitos, de consciência leve, livres da culpa e cheios de medalhas de caridade no peito. E o cavalo, morto.

Suzana suicidou-se.


sábado, 26 de julho de 2014

matrimonium



Espero repleto de amor, 
Da cor de seus cabelos, 
Que a espera não cause mais dor 
E atenda aos meus apelos; 
Que vida reserve a nós dois, 
Além do alpendre e depois: 
A cumplicidade do laço, 
A serenidade dos barcos, 
E a felicidade de um dia de sol.


quinta-feira, 24 de abril de 2014

Ashita made



Acordar da vida, 
Despertar dos dias sem sentido. 
Ver que além da linha 
Do horizonte, logo ali, há um dia lindo. 
Indo e vindo os dias passam; 
Praça, porta a dentro, 
Venta, chove e faz sol. Talvez 
O adormecer da vida 
Não seja partida, seja até mais ver.

Acordado ainda, 
Desperto dos dias mal sentidos. 
Vejo que inda há vida; 
Além do horizonte há um dia vindo. 
Idos os dias passados, 
Porta a fora, a praça 
Pede festa até o sol nascer. 
Ao adormecer da vida 
Sinto que a partida é esperar rever.


domingo, 23 de março de 2014

Vincent



A turbidez da imagem sonhada 
Impressa a óleo sobre a tela 
Trazia à realidade clara 
A dor da alma por trás dela. 
Tão bela obra elaborada 
Por mente assaz perturbada 
Só poderia ser chamada 
De sonho em óleo sobre tela.

 

sábado, 15 de março de 2014

Quedê?



Onde estará o meu maço de ideias? 
Onde andará meu buquê de esperanças? 
Onde deixei minha caixa de sonhos? 
Onde é que está meu amor de infância?

 

sexta-feira, 14 de março de 2014

Palavras vadias



As palavras metidas 
Na métrica fria de versos, 
Vazias de vida e sentido, 
De amor desprovidas, 
Apenas se deixam usar... 
Palavras não sabem o que dizem.

 

sexta-feira, 7 de março de 2014

Desde sete de abril



Não te conheci e me apaixonei no mesmo instante. 
Te conheço e me apaixono, mais e mais, a cada dia. 
Não te achei maravilhosamente linda à primeira vista. 
Maravilho-me de tua beleza a cada novo olhar. 
Assim tenho te amado desde sete de abril.


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Anônimo da Silva



A minha pobreza é de vida, 
Devida e não paga à morte. 
É sorte não ter longa vida, 
Mas que tem o pobre co'a sorte? 
Se é forte dizer isso ainda, 
É que há coração caridoso. 
Se ver-me não te angustia, 
És verme em carne e osso.

Osso do quadril me desponta 
Se sento no banco da praça; 
Me faz bem o arrulhar das pombas 
Que em todos defecam de graça. 
Que graça que faço que riste? 
Se a vida é maior piada, 
Que tudo na vida é tão triste, 
Mas ri-se de tudo e de nada.

Se não faltar chuva pro banho, 
Jornal-cobertor, pão de ontem, 
Me faça o destino outro tanto 
De bem, se não mudo meu nome. 
De manhã acordo com fome, 
Mentira! Nem durmo, faminto. 
Será que mudando de nome 
Engano a fome e o destino?

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Misteriosa vida



O que quer que seja a vida, 
Não é fácil de viver. 
A chegada e a partida 
Pouco podem nos dizer 
Dos caminhos percorridos, 
Do aquém e além daqui, 
Seja o que for a vida, 
Não é fácil definir. 
Ah, indecifrável vida, 
Dá-me um pouco descobrir.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Redivivos



Às vezes o passado é tão presente e o distante está tão perto. É o que sentimos no almoço na casa da avó, no pão doce com cajuína (ou tubaína ou simba, alguns dirão “pastel com dindim” – eu mesmo poderia dizer), no abraço dos amigos, nas crianças jogando bolinha de gude ou “futebol de travinha”, ou rodando pião (sim, isso ainda existe aqui e ali). Estamos todo o tempo e o tempo inteiro perto de quem fomos e do que tivemos. Não só isso. 
Às vezes, mas só às vezes mesmo, somos capazes de nos ver nos outros, de sentir que no sorriso do flanelinha mirim há um pedaço da infância da gente, de constatar que na cantoria do menino do pandeiro no ônibus há um “eu cantando no chuveiro”. Bobagem? 
Se não fosse só “às vezes”, veríamos que, de fato, somos o passado, o presente e o futuro uns dos outros.


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