Fui ver o mar. Já estava em tempo de ir visitar o "meu analista"; fui apressado, acordei cedo para pegar o melhor horário, mas não levei tanta tralha quanto os "outros pacientes". O que levei mesmo foram os meus problemas de sempre: minhas preocupações, minhas frustrações, minhas paranóias etc. Estava disposto a expor ao "meu amigo" tudo o que me afligia a alma, e o fiz.
Ao chegar diante do mar, olhei para ele, que se estendia em todas as direções e parecia tocar o céu lá no horizonte, admirei aquela imensidão, reverenciei aquela beleza, meditei ouvindo o som das ondas quebrando na praia, deixei-me estar sentindo o vento varrer a nebulosidade que me envolvia até então, e depois dessa "preparação", levantei-me, corri em direção ao "meu amigo de água salgada", lancei-me num abraço e mergulhei para afogar minhas angústias, maus sentimentos, minhas mágoas.
Debaixo d'água, senti-me como um bebê no útero materno, estava sendo gerado de novo ali; depois passei a boiar por alguns instantes, e era como se estivesse deitado num berço tranquilo, sendo embalado por uma canção de ninar, o doce som do mar. Daí levantei-me daquele meu "batismo" e voltei à praia, novamente olhei para o mar e contei com sua cumplicidade; havia depositado nele a minha velha vida, para viver uma vida nova. Fiz-lhe uma reverência, despedi-me e fui-me embora.
Chegando em casa, renovado e livre dos pesares, cantei:
O mar levou as minhas mágoas
Ele lavou as minhas lágrimas;
Ao me banhar em suas águas,
Me refizeram, suas vagas.
O mar levou as minhas dores
E me curou dos meus temores;
Me fez de novo ver as cores
E fez sarar meu "mal de amores".
Nunca vou esquecer do dia em que fiz aquela visita ao meu amigo, ele me disse que tudo na vida tem sentido. E sempre que algo me perturbar ou algum problema me cercar não vou chorar, e ao sofrer não vou pensar em me matar... eu vou correr pra ver o mar.